Tema 2018: “Narrar(-se) para...”

A cada ano, escolhemos um tema a ser desenvolvido ao longo do próximo período letivo. Os assuntos abordados sempre derivam e giram em torno da Condição Humana. Geralmente expressos sob a forma de um questionamento, trazem convocações dirigidas a todos os públicos envolvidos: aos alunos, às famílias, mas também ao próprio Colégio: professores, equipe e direção.

A ideia é que cada um deles nos ofereça variadas portas de entrada e trajetórias pelas quais podemos "visitar" e refletir sobre diferentes aspectos da Condição Humana e da vida em sociedade.

Naturalmente, certos temas revelam - ou até sugerem - atravessamentos de circunstâncias mais amplas. Como toda ação educativa, o tema sempre pressupõe uma utopia, um projeto de Ser Humano e de sociedade. Portanto não é neutro: toda ação educativa traz em seu bojo um viés político.

No Andrews, cuidamos para que os temas abordados sejam  oportunidades para vivenciarmos os valores e as intencionalidades sempre presentes no Projeto Educativo.

Nosso objetivo maior é a autonomia e a capacidade de autoria do sujeito. Construir-se autor é um trabalho subjetivo. Ser um sujeito autor e autônomo implica a possibilidade de conceber e de criar produções próprias, originais e também a capacidade de interferir no mundo, de trabalhar e de deixar sua marca. Na medida em que o sujeito assume sua potência, sua obra reflete-se no grupo e na sociedade em que ele está inserido.

Em 2018 o Colégio alcança seus 100 anos. Queremos celebrá-los  recordando  o sentido dos traços que, no início do século passado, marcaram a particularidade do Andrews. Celebraremos ainda reafirmando os valores e os princípios que nos asseguram a base a partir da qual esboçaremos novos desenhos para atualização de nosso Projeto Pedagógico.

Escolas são obras coletivas, sempre construções feitas a várias mãos. Trajetórias mais longas requerem o trabalho de duas ou mais gerações de educadores para a consolidação de seu Projeto Educativo. Se o Andrews pôde chegar até aqui, cabe reconhecer o mérito da contribuição de muitos e muitos professores, educadores, colaboradores e famílias, que desbravaram os caminhos para a nossa atuação.

Em tempos de muitas mudanças, um dos principais desafios é a concepção de trajetórias que favoreçam a construção de sentido para a existência humana. Nesse aspecto, é especialmente importante o papel que podem ter as narrativas. Delas brotam as diferenças e as identidades, pessoais e grupais.

Narrar não é apenas recordar o passado, mas sim um meio de recriá-lo, de despertar  histórias para que se produzam outros sentidos, outras relações, outros nexos, novas sínteses. Toda narrativa tem uma dimensão individual e uma coletiva. Nesse sentido, a narração  nos ajuda a educar e nos educa permanentemente.

As próximas gerações vão viver e atuar em pleno século XXI. Ao longo de seu tempo de vida, serão contemporâneas de muitas transformações e revoluções em curso. Nascidas nesse início de século, estão destinadas a acompanhá-lo até o raiar do próximo e a encerrar suas vidas em um mundo e contexto provavelmente bem diferente, então modificado pelas diversas mudanças que terão ocorrido até lá.

Para isso, deverão ter tido uma formação que lhes dê condições para que atuem , contribuam e agreguem valor. Cada um deverá encontrar superfícies de inscrição, áreas nas quais atuará e contribuirá para o seu entorno social, deixando sua marca. Sua capacidade de leitura de mundo e de produção de sentido lhe possibilitará superar o desafio que será viver nesse tempo e interferir onde quer que atue. Sua escolaridade básica precisa, para além do aspecto  acadêmico, ser estruturante e constituinte, sobretudo no que se refere às dimensões subjetivas e emocionais. Sua trajetória escolar deverá inspirar produções de sentido, inserção social e constituição de projetos pessoais plenos e gratificantes.

O Andrews concebe o seu Projeto Educativo como uma narrativa, cujo propósito é despertar o desejo de conhecer e de compreender,  mobilizando o aluno para a produção de sentido. O seu núcleo consiste em uma determinada hipótese acerca da Condição Humana. Para essa compreensão, articula-se um discurso  amparado nos mesmos pressupostos teóricos que inspiram sua ação educativa.

Assim, o Andrews aspira a contribuir para trajetórias pessoais e profissionais. Formula um convite para que outros venham a utilizar o seu Projeto como suporte e como área de inscrição para autorias e narrativas pessoais.

Histórias de vida são construídas pela integração de todos os elementos do passado que consideramos relevantes para entender ou representar a situação atual e enfrentar prospectivamente o futuro. Acreditamos que o tema “Narrar(-se) para...” poderá contribuir para uma reflexão coletiva e uma autorreflexão. Novas trajetórias, novas sínteses e/ou novas formas de intervenção na sociedade com certeza surgirão, produzindo novas histórias para todos aqueles que constituem o Colégio Andrews.

Essas foram as primeiras reflexões sobre o tema de 2018 que nos ocorreram. Alguns textos para leituras complementares (Anexos) estão disponíveis no site do Colégio www.andrews.g12.br  Esperamos que possam ajudar a aprofundar o que partilhamos aqui.

No Anexo 1Fernández  destaca a importância de construir-se um passado, historiar-se para a constituição de um ser humano autor e autônomo. Trata-se de um trabalho psíquico de construção e reconstrução permanentes no qual os novos contextos, sobretudo midiáticos, trazem alguns desafios.

No Anexo 2Martino aborda a narrativa como um dos elementos centrais do ato de comunicação. “Ao se contar uma história, não se está apenas transmitindo algo para alguém, mas criando vínculos entre identidades e diferenças, tanto em termos cognitivos quanto afetivos”. 

No Anexo 3as autoras apoiam-se na afirmativa de Benjamin de que a narrativa que transmitia a experiência coletiva foi perdida. Com a modernidade, a narrativa passa a ser centrada no eu. Nesta passagem, o fio narrativo que tecia a trama da experiência compartilhada fica reduzido a uma função ilustrativa. É nesse ponto que as autoras situam “a invenção da análise como forma de dar lugar não a um resgate como tal do passado, mas ao sujeito que, ejetado da História, “sofre de reminiscências””.

No Anexo 4Vieira e Henriques ampliam a reflexão feita no Anexo 1, trazendo contribuições de outros autores sobre o papel da narrativa como ferramenta usada na construção da representação do mundo. O ser humano “constrói narrativas sobre si mesmo a partir de narrativas culturalmente, dadas e, nas quais ele assume o lugar de protagonista em um processo de autoconstrução”. Essas histórias contextualizadas são a própria forma da identidade do seu autor. 

No Anexo 5Santinello reflete “sobre as perspectivas do processo de identidade mencionada por alguns teóricos e seus referenciais/conceituais/descrições, bem como sua constituição social e suas implicações sociopolíticas identitárias do sujeito”.

O Anexo 6é um recorte de um livro de entrevistas sobre a questão da identidade feitas por Bennedetto Vecchi a Bauman. Essas entrevistas não ocorreram em um único momento e foram feitas por e-mail.

Para Bauman, a identidade é algo a ser inventado, e não descoberto. Um objetivo. Algo que precisamos construir, ou escolher entre as alternativas, e então lutar por ela e protegê-la,  apesar  de  sua  fragilidade  e  de  sua  condição  eternamente  provisória. Nesses trechos escolhidos, Bauman aborda os desafios que a afetam em um ambiente de vida líquido-moderno.

 

Esse foi o tema escolhido para marcar os 100 anos do Colégio Andrews. Que esse momento possa ser, de fato, vivido e celebrado por todos em 2018. Como sempre, novas contribuições serão bem-vindas.

A vocês, nosso obrigado por mais um ano em que seguem conosco nesse Projeto Educativo que, afinal, pertence a todos que o abraçam. Que as narrativas produzidas possam constituir promessas de um futuro melhor para todos.

 

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